Carta de suicídio

Não, eu não vou me matar. Lembrei que eu tinha deixado uma nota de suicídio em um aplicativo de diário qualquer por aí (desses que tem de graça na internet). Já fazem muitos anos desde que eu o acessei pela última vez. Eu acabei escrevendo algumas outras cartas de suicídio, mas essa foi a única que sobreviveu, justamente porque as outras eu apaguei pra não ter de voltar a lê-las. Esta, pelo visto, esqueci de apagar.

Enfim, depois de ter lembrado do aplicativo, fui verificar pela existência dele no Google e — para a minha surpresa — ele ainda estava lá, e a minha conta ainda existia. Se vocês acham que hoje eu sou retardado, então aguardem pra ver qual era o nível da minha doença mental quando eu era 6 anos mais novo. Aqui vai um pouco de lixo em formato de letras pra vocês lerem, junto com algumas confissões (Nomes e outras informações que pudessem me identificar foram ocultados, coloquei algumas observações para esclarecimento e os erros de português foram mantidos, para fins didáticos):

Carta de suicídio

Ué, por que não? Posso muito bem querer cometer suicídio hoje mesmo. Além do mais, nada melhor pra me pôr de volta na realidade do que pensar que hoje será o meu último dia de vida, mesmo que eu não ponha o suicídio em ação. Não preciso me matar. Só preciso considerar a possibilidade de me matar. Se algum dia eu me render à essa ideia, então isso somente vai significar que eu sou fraco demais pra me salvar de mim mesmo.
Falando em me salvar de mim mesmo, não vou deixar de culpar em primeiro lugar o Cara que foi sempre meu ponto de retorno, o Cara pra quem eu sempre pedi pra me salvar de mim mesmo, o Cara que até hoje não resolveu realizar esse pedido. Pois bem, agora eu cheguei ao ponto de não-retorno. Não vou morrer em paz, isso eu garanto. Se eu tivesse paz nessa vida, eu não resolveria fazer o que estou prestes a fazer. “A paz de Jesus Cristo esteja sempre convosco”. Ninguém mais vai saber o que isso significa. Nunca. Só Você. É claro que Você já sabia, mas mesmo assim não desistiu de tentar.
À minha família, só tenho a dizer que vocês podem até ficar tristes de início. Mas no fim das contas, não vai demorar muito tempo até pararem de sentir minha falta. Que é que eu fazia? Qual era a minha função? Arrumar o computador de vocês? Sim, pode ser. Mas e o resto? E o estorvo que eu fui? Só servir pra causar desconfortos, pra incomodar os outros. Nunca tive inteligência acima da média. A Srta. Óbvia [irmã 1] simplesmente não me aguenta. Tudo é óbvio pra ela. “É óbvio que você é burro, nunca faz nada”; “é óbvio que você fica doente, nunca nem se mexe”; “é óbvio que ninguém te aguenta”; “é óbvio que isso”; “é óbvio que aquilo”. O mesmo vale pra cada um nessa família. Nunca nenhuma palavra de apoio ou um elogio sincero saiu da boca de vocês. Nunca nenhum gesto além de convenções sociais. Nunca nenhuma lembrança que alguém da família pudesse ter que causasse um sorriso quando passasse pelas nossas mentes. O que são as nossas boas lembranças? Reuniões de férias, diversões em família, viagens em grupo, risadas em uma roda de conversa? Foram momentos felizes? Decerto que foram. Mas todos em grupo. Como se a condição necessária de felicidade fosse estar sempre em família, sempre perto da família, sempre em uma roda de conversa, sempre entre pessoas (senão família, então entre amigos) onde ninguém não tem nada de bom pra contar a não ser um monte de fofocas, piadas e coisas que não tem nenhum fundo de valor, nenhum mérito. Que tipo de lembranças tivemos onde nós, individualmente, nos sentimos felizes? Onde nós nos sentimos realizados com nós mesmos?
Não me impressiona os complexos e doenças mentais que assolam a família toda. A mãe é uma doida; o pai é inteligente, poderia ser muito mais do que é, poderia ser um gênio, mas assim que descobriu o [ocultado], passou a viver à sua sombra e virou um conformista, mansinho, mansinho...; a [irmã 1] é ao mesmo tempo insuportável e não suportada por ninguém, rabugenta, a loba solitária, auto-realizada e independente, a Srta. Obviedade, se acha mais inteligente que todo mundo, a Srta. Praticidade que pensa sempre certo, a que tem mais probabilidade de morrer sozinha nessa família; o [irmão 2] é um complexado, cheio de manhas e não-me-toques, mas ao mesmo tempo se acha o machão e tem opinião pra tudo, o engraçadão, punheteiro desde tenra idade (achou que eu não vi aqueles CDs cheios de arquivos ocultos? Como se você pudesse me enganar), se desaba em lágrimas e bebedeira sempre que surge uma depressãozinha, tem que viver rodeado de amor, com carinhos e atenções sempre servidos em bandeja de prata, exigente no amor, não à toa casou com a [esposa dele], mulher hiper-gentil e bondosa, sensível igual a ele, e que mais ou menos cumpre as suas exigências; A [irmã 3] parece um homem, carrancuda, batia nos moleques desde pequena, gosta de ter o próprio espaço mas não consegue viver solitária, sempre pecisa ter amigos(as) por perto, senão ela entra em colapso, parece ser a mais normal da família, mas deve ter algo a mais que eu ainda não consegui notar; a [irmã 4] é um [irmão 2] 2.0, só que com características agravadas por ser mulher, não consegue viver sem um bode-expiatório, alguém pra pôr a culpa, nunca teve nenhum problema de verdade nessa vida, nem os mais simples: nunca teve cáries, nem dentes tortos, não nasceu com pernas tortas, é linda, sempre foi mais ou menos popular, nunca lhe faltou nada, nem roupas, nem comida, foi a que menos tinha problemas na família e talvez por isso ela resolveu criar os próprios problemas imaginários, uma respondona de língua afiada, tirava a mãe do sério, depois se virou contra o mundo e resolveu que ninguém gosta dela, sabe-se lá por que razão; a [irmã 6] é inteligente e esforçada, gosta de ler bastante, ela tem um bom potencial, mas o problema é que sua inocência foi removida já em tenríssima idade, quando eu, por burrice, retardadice, malícia, e mil outras coisas mais levei ela a desejar assistir videos pornôs na internet, então há que se prestar atenção nisso, porque possíveis complexos poderão surgir; a [irmã 7] tem tudo pra virar uma complexada também, apenas esperemos pra ver.
E eu [irmão 5]? Bom... eu me deixei por último pra ser a cereja do bolo, pra ser o elemento que confirma a regra de que existe algo de muito errado nessa família. Iniciemos: sou homossexual, já dei o cu, sou promíscuo e completamente imoral, sou hipócrita por apresentar uma casca ridícula de moralismo católico quando minhas ações dizem o completo oposto, sou preguiçoso, notavelmente lerdo, antiprático, me falta o interesse por qualquer coisa que seja (escolhi a área da computação por que me pareceu mais conveniente ter que lidar com seres inanimados como os computadores e não com gente), sou anti-social por absoluto, desligado de qualquer relação humana, não tenho amigos, ao menos não da minha parte (se existe alguém que me considera como amigo, são outros quinhentos). Sou depressivo até dizer chega, apesar de sempre aparentar ser um completo boboca, dando risada de tudo, mesmo sem ter motivo nenhum. Intelectualidade zero. Sem graça. Irritante ao ponto de eu mesmo não conseguir me suportar. Sou problemático.
Suicida.
Guardo tudo dentro de mim. A [irmã 1] ainda diz que sou molenga, mariquinha. Eu discordo. Minha infância foi pro beleléu, sou um infeliz desde que nos mudamos de [cidade ocultada]. A depressão foi a minha companheira de viagem nessa vida. Quando eu era pequeno minhas diversões favoritas eram assistir videos pornôs, bater punheta e depois entrar debaixo da cama pra chorar igual um bebezão e ficar falando pra mim mesmo que eu era um inútil e que eu queria morrer. Depois disso me escondi no meu catolicismo só pra fingir que eu tinha algo de bom por dentro. Molenga? Deixei de ser faz tempo. De uns tempos pra cá eu estive tendo vontade de surtar quando eu via a [irmã 4] de depressãozinha. Eu aguento uma depressão muito maior do que a dela e não fico chorando e gritando pelos cantos contra tudo e contra todos.
Dei dicas várias vezes pra minha mãe de que eu estava precisando de ajuda. Pedi um diretor espiritual, insisti pela assinatura do site do Pe. Padre Ricardo (não encontrei consolação nenhuma lá, no entanto, mas foi uma boa tentativa), pedi psicólogo, logoterapeuta. Até avisei pra ela o quanto eu fiquei abalado pelo suicídio de alguém próximo de mim [um colega de classe meu havia cometido suicídio próximo dessa época]. Talvez seria porque eu próprio já estava com a ideia de fazer o mesmo? Ela sequer desconfiou.
Mereço o inferno.
Ao contrário do Getúlio Vargas, eu não saio da vida pra entrar na história. Saio da vida pra sair dela. Ir pra lugar nenhum. Saio da vida pra entrar no vácuo. Saio da vida pra ir pro nada. Saio da vida pra ser esquecido pra sempre, pra ninguém lembrar meu nome, pra ninguém dizer que algum dia eu existi. Saio da vida pra tirar o meu nome dessa família tosca.
Vão todos tomar no meio dos seus respectivos cus.
Não precisam sentir a minha falta.
Carinhosamente, [O Idiota — seria o meu nome, é claro]

Ok, acho que talvez seja possível que eu tenha sido depressivo... ou talvez tenha sido só uma fase de muita tristeza e hoje já passou? Não quero ser diagnosticado com depressão. É um saco ter que tomar remédio com hora marcada.

A grande verdade é que a carta é quase que completamente mentira, fruto de uma visão de vida deturpada pela raiva, pela tristeza e pela frustração. Não sei nem por onde começar a desembaraçar esse enorme rolo de mentiras entrelaçadas que eu criei na minha mente, então em vez disso vou frisar uns fatos importantes pra mim mesmo:

É isso, pessoal!

Espero que vocês tenham tido uma péssima leitura!