Contra a realidade

Ultimamente eu tenho tido esta vontade sádica de me punir assistindo a vídeos de pessoas que duvidam da realidade — mais precisamente, que duvidam da informação que nos chega através dos sentidos. Eu fico genuinamente fascinado com a retórica desses indivíduos, e me sinto compelido a compartilhar um pouquinho do meu sadismo com o mundo:

O padrão aqui é claro: se você estuda matemática, então tudo é matemática; se você estuda física, então tudo é física; se você estuda computação, então tudo é computação. Eu estou longe de ser um intelectual, mas essa maneira de cada um reduzir a realidade ao seu próprio campo de estudos soa claramente errada pra mim.

Não, não vou refutar ninguém. Já passei por essa fase aos meus doze anos de idade, quando eu pesquisei no Google o termo “como refutar ateus” e caí no site Quebrando o Encanto do Neo-Ateísmo1. Esse fetiche pelos silogismos, de encarar tudo como um debate e de ficar esquizofrenicamente pescando falhas lógicas no discurso dos outros — como se as pessoas argumentassem o tempo inteiro (vocês sabem o que é um argumento?) — é coisa de gente desocupada. O erro desses caras está muito abaixo do discurso lógico, porque eles querem negar o que todo mundo sabe que é inegável por intuição.

Basta largar essa gente toda no meio da savana, e então deixar as ondas matemáticas — ou o ícone da interface gráfica — de um leão ou de uma hiena abocanhar as suas jugulares. Com a hiena seria mais engraçado, porque além de tudo ela ainda iria rir da cara deles. Tudo isso matematicamente, é claro.

É muito fácil negar a realidade estando sentado o dia inteiro na frente de um computador. O que eu quero ver é neguinho convencer quem precisa andar até o banco pra pagar um boleto que está vencendo de que tempo e espaço não existem.

Há muito tempo atrás eu li um texto do Olavo de Carvalho chamado Inteligência e Verdade. Até hoje não consegui entender o texto inteiro, mas eu entendi algumas partes e o Olavão explica muito bem como funciona a cabeça dos negadores da realidade (destaques meus):

O termo “intuição” designa em filosofia um conhecimento direto, uma intelecção maximamente evidente (o que não significa que deva ser confundida com o sentimento subjetivo de certeza). Exemplo de um ato de inteligência intuitiva: o fato de você estar aqui neste momento é uma certeza absoluta e incondicional, o que não quer dizer que você não possa duvidar dela, que você não possa até mesmo, por um jogo engenhoso de imaginação, ter o sentimento da certeza de estar em outro lugar; significa apenas que você só duvidará dela e só acreditará estar em outro lugar se você sentir o seu campo de experiência como dividido em blocos estanques, se você perder o senso da unidade do campo da experiência, o que só acontece na fantasia, no estado hipnótico ou na esquizofrenia. Quando sua inteligência admite que você está aqui, você está admitindo como verdadeira uma determinada interpretação que você faz do conjunto das informações que você tem neste momento, mas não só a respeito deste momento e sim a respeito do encaixe entre ele e os momentos que o antecederam e os que se seguirão. Você sabe que está aqui não só por causa das informações sensíveis que recebe a respeito do ambiente, informações auditivas, tácteis, etc., mas também porque você sabe que estas informações são coerentes com um passado ( você se lembra de ter vindo até aqui ), são coerentes com um projeto de futuro, ou seja, com uma idéia que você tem a respeito do propósito com que veio aqui; e tudo isto forma um sistema tão coeso, tão inseparável, que a respeito deste conjunto você pronuncia o julgamento de que isto é verdade: Você sabe que você está aqui. No entanto, não seria impensável que, estando aqui, você imaginasse estar em outro lugar, e que até mesmo se persuadisse e, um tanto auto-hipnoticamente, “sentisse” que está num outro lugar. Tudo isto pode ser produzido; porém, se o senso da unidade do campo da sua experiência ainda funciona, algo lhe dirá: isto é falso. Por que? Porque as informações que dizem que você está aqui vêm todas juntas; ao passo que as que você está produzindo para dizer que está em outro lugar vêm por partes. Examine. O quê imaginou você a respeito do outro lugar onde supõe estar? o som? o visual? Um ou outro? Certamente não foram os dois exatamente no mesmo tempo e em proporção coerente. O motivo, o antecedente temporal da sua presença ali, eram-lhe tão claros quanto as sensações visuais ou auditivas? Não: mas as informações que você recebe aqui sobre sua presença vêm todas coladas umas às outras. Você não pega primeiro o visual, depois o auditivo, depois o táctil, ou seja, você não compõe este ambiente, ele lhe vem todo junto; e, embora você, por abstração, possa momentaneamente prestar atenção mais a um aspecto que a outro, você sabe e se recorda de que os aspectos preteridos estão aí presentes e podem ser atualizados na percepção a qualquer momento, sem um trabalho interior de construção voluntária (que você lhe seria obrigatório de modo a completar a imagem do outro lugar suposto, onde supostamente estaria ou se sentisse estar enquanto está de fato aqui).

Esta certeza que você tem de estar aqui é o que se chama evidência. Uma evidência é um conhecimento inegável, e até de certo modo indestrutível, porque, se você dissesse que não está aqui, a quem você o diria? A quem está lá, ou a quem está aqui? O ato mesmo de você dizer que não está aqui subentende que está.

Quem já teve a experiência incrível de ter um sonho lúcido reconhece facilmente a verdade óbvia: você só descobre que está sonhando porque você sabe que o que está experimentando não é real. O senso de temporalidade em um sonho é totalmente falho — como quando você olha para um texto escrito em algum lugar, depois olha em outra direção e volta a olhar para o texto, e o texto está diferente de antes. O antes e o depois não batem. É aí que você descobre que está em um sonho!

Não confundam este meu texto com um argumento. Não tentem me refutar. Eu não estou apelando à lógica. Só é capaz de negar a realidade quem, como o próprio Olavo diz, perdeu o senso da unidade do campo da experiência — de forma mais simples: quem perdeu o senso do real.

Esse pessoal tem parar de viver de criação de conteúdo no YouTube e arranjar um emprego de verdade, de preferência um que envolva um trabalho manual e repetitivo, que é pra fixar bem o senso de tempo e de espaço.


NOTAS

1. O site em si desapareceu da internet, mas aí foi criado outro site onde republicaram os textos do site original.

#Críticas