Hacker do COF

Em vez de ingressar em algum assunto depressivo, hoje vou contar uma história pra vocês. Eu tinha lá os meus dezesseis anos, era 2013 e o Brasil pegava fogo por causas das manifestações de junho.

Nesse período surgiram muitos metidos a heróis que hoje se venderam ao estamento burocrático e largaram o povo pra trás, como por exemplo o Kim Kataguiri, que conseguia até ser engraçado, mas terminou ficando retardado. No meio disso também surgiram personagens como o Smith Hays que chocou os esquerdinhas porque era gay e de direita (que contradição!) e uma pirralha chamada Isabella Trevisani que tinha mais bolas do que muito homem por aí.

Vou focar nesta última, porque ela foi uma peça chave para a cura de um desespero profundo que eu estava sentindo naqueles dias, porque eu não conseguia conciliar minha homossexualidade com o meu catolicismo.

O que aconteceu foi que muitas pessoas começaram a atacar a menina, aos milhares — assim, uma quantidade totalmente absurda e irracional de ódio direcionado ao que pra mim era uma criança — por ela ter dito umas verdades, e isso acabou chegando ao conhecimento do Olavo de Carvalho, que acabou por dar acesso ao COF de graça para ela.

Eu não podia ter ficado com mais inveja! Um tempo antes disso eu já havia começado a perder a linha e estava ficando totalmente louco com a contradição na qual vivia. Eu fazia um curso técnico de informática, já tinha conhecimento de programação e era muito interessado em segurança cibernética.

Eu também já conhecia o Olavo através do True Outspeak, que por conseguinte eu conheci por causa de um site chamado Quebrando o Encanto do Neo-ateísmo que hoje já sumiu e só restam alguns textos recuperados por fãs. Eu era doido por refutar ateus, e aprendi as calar a boca e parar com esses debates vazios por causa do Olavo.

Com a cabeça perturbada, pensei que a solução poderia estar em aprender um pouco de filosofia pra ver se eu tomava algum rumo na vida. O Olavo era a minha única referência disso, mas eu não tinha dinheiro pra pagar o COF, pois todo o meu dinheiro vinha dos meus pais (que não me davam). Na época eu tentei convencer eles a assinar o curso, mas eles não gostaram do Olavo porque ele falava palavrão.

Tentei enviar um e-mail para o Olavo, meio que contornando o assunto porque eu estava com vergonha de pedir diretamente o que eu queria. Eis o e-mail:

Primeiro eu queria começar com uma pergunta: com que frequência você dá conselhos para jovens de 16 anos? É só por curiosidade, porque na verdade eu ainda não sei se essa é a idade certa pra ficar pedindo conselhos para pessoas além do meu pai e da minha mãe sobre o que eu vou fazer da minha vida. Só estou te enviando um e-mail pedindo conselhos porque eu sei que eu não tenho nada a perder com isso, e talvez até possa ganhar uns bons conselhos, no final das contas.

Eu conheci seu programa via google, há pouco mais de um ano, na tentativa de encontrar respostas para contra-atacar um professor marxista (que, aliás, nunca foi respondido). No começo eu mal entendia o que você falava nos seus programas do true outspeak, mas aos poucos fui pegando o fio da meada e acabei me interessando pelo que acontece à minha volta, e hoje já consigo entender mais ou menos o que se passa aqui no Brasil, muito embora eu ainda não tenha nenhuma opinião concreta sobre absolutamente nada, porque apesar de eu ter uma série de opiniões prontas na minha cabeça, elas não me servem, porque não consigo explicá-las direito.

Bom... no momento eu tenho alguns conselhos para pedir para o senhor. O primeiro é: dado o estado em que as coisas se encontram aqui no Brasil, onde eu poderia arranjar um bom começo para estudar igual gente, e não igual a um animal? O meu futuro de estudante mora no Brasil, ou no exterior? Sou nível intermediário em inglês, então eu acho que já daria pra eu pensar em alguma coisa pra fazer fora do país, embora ainda esteja muito cedo para eu pensar em uma coisa dessas, já que ainda tenho 16 anos.

Caso não seja possível responder “onde” eu posso estudar, então eu poderia te pedir o “como” eu posso estudar, sem depender de professores?

Um outro conselho que eu queria te pedir é: qual é o jeito mais f'ácil de arranjar um curso confiável de filosofia? Eu meio que me interessei pela filosofia, mas não posso ter certeza disso até eu começar a estudá-la sériamente, afinal, o mais perto de filosofia que eu já cheguei a ter contato na minha vida foi assistir o seu programa e ler “O Mundo de Sofia”.

Obrigado pela atenção, gosto muito do que você faz.

Sim, eu era retardado (ainda não sou?). Mas, para a minha surpresa, o Olavo respondeu ao meu e-mail enorme e sem sentido, só que não era o que eu esperava:

Prezado [Meu Nome Aqui],

Toda a orientação que posso lhe dar está no meu curso de filosofia, criado justamente para pessoas na sua situação, e que já vai para o quinto ano. Peço que escreva à minha assistente, a Marcela, que poderá ajudá-lo a se inscrever e acompanhar as aulas. O e-mail dela é [escondido].

Com os melhores votos do
Olavo de Carvalho.

Sabe, eu estava querendo algo mais à la Isabella Trevisani, mas eu entendo que se o Olavo ficasse distribuindo assinaturas gratuitas por aí, ele iria perder muito dinheiro. Entrei em contato com a tal da Marcela e descobri que eu não tinha esse “passe livre” e que teria que pagar pelo curso. Apesar de ser muito barato (R$ 50,00/mês), eu não podia, pelas razões já explicadas.

Pensei comigo mesmo: “Ok, se não foi por educação, então vai ser pela força!” Comecei a tentar invadir o site do Olavo de todas as maneiras que conhecia, por meses a fio. Acho que posso até ter o sido responsável por uma ou duas quedas nos servidores do Mídia Sem Máscara e do Seminário de Filosofia (Silvio Grimaldo, por favor, não fique magoado!). Não consegui nada.

A única vulnerabilidade realmente plausível era a de utilizar um ataque de força bruta na senha de algum usuário, mas havia uma limitação de 500 requisições e depois, se me lembro bem, eu tinha que esperar cinco minutos para poder realizar tentativas de login novamente. E eu não tinha nenhum único de um mísero de um usuário conhecido. Não havia como continuar por esse meio. Fiquei triste e decepcionado.

E é aí que a Isabella Trevisani entra. Recapitulando: eu havia ficado irado porque ela ganhou o COF de graça e eu não. Por alguma razão aleatória, eu comecei a seguir ela em todos os posts possíveis no Facebook. Em qualquer lugar onde o nome dela era mencionado, lá estava eu, vidrado, lendo tudo.

Pois depois de um tempo que o Olavo tinha dado o COF gratuitamente à Isabella, não é que uma aluna do site resolveu ser gentil e acolhedora com a menina? Fez até questão de publicar um vídeo no YouTube explicando tim-tim por tim-tim como o site do COF funcionava.

Qual não foi a minha alegria ao assistir esse vídeo e ver a moça navegando pelo site, revelando vários nomes de úsuário! Fiquei feliz da vida! Anotei todos! Corri pra fazer um script, usando um dicionário qualquer das senhas mais utilizadas na internet, e deixei o troço rodando, testando as senhas em cada usuário.

Não precisei nem esperar muito tempo. Logo apareceu o premiado: a senha dele era “please”. “please”. “ple-fucking-ease”. O cara merecia. Ninguém pode ser perdoado por utilizar uma senha tão lixo. Mas eu agradeci imensamente pelo descuido. Ele ainda era bom pagador. Estava com as parcelas em dia, assinava tanto o COF como também o Seminário de Filosofia.

Quando comecei a assistir as aulas, levei um choque de realidade. Não cheguei a passar da vigésima — hoje já não me lembro muito bem nem mesmo do conteúdo das aulas em si (exceto pelas primeiras). Só sei que eu fiquei com nojo de mim mesmo por ter tido acesso a um tesouro daquele de forma ilícita. Descobri também que minhas contradições não eram tão graves assim. Naquela época fui salvo da loucura (hoje já não sei mais), e de uma possível depressão profunda, por causa do Olavo de Carvalho, e a ele serei sempre grato.

Depois do choque, parei de acessar o site pela conta que tinha roubado, e prometi a mim mesmo que só voltaria para o COF com o meu próprio usuário, minha própria senha (senha segura, é claro) e pagando com o meu próprio dinheiro.

Por alguma razão, nunca voltei... ... ...E essa, meu amigos, é a história do dia em que eu hackeei o site do Curso Online de Filosofia do Olavo de Carvalho!

Até a próxima!