Inconsequente

O desejo de morrer nem sempre se caracteriza pela manifestação de pensamentos suicidas na mente de quem sofre. Pensar em suicídio é extremo demais, fatalístico demais. Óbvio demais.

Não.

Quem perdeu as chamas da esperança — a alegria de viver — quer morrer sem dar alarde dos seus tormentos interiores, calcula friamente, não quer incomodar os outros com sua depressão insignificante (quem se importa?). Que tal tentar fazer parecer um acidente? Ou dar ares de morte natural àquilo que na verdade é um desejo profundo de partir desta para uma talvez não muito melhor? Algo do tipo... contrair HIV, fingir que não sabia e não se tratar? Será que pode acontecer uma curva errada no caminho de volta para casa, que desemboque em uma rua vazia, escura e perigosa?

Pode ser também que a pessoa nem saiba que quer se matar, mas demonstra em atos inconsequentes o seu desejo letal. É cortar o freio e continuar dirigindo a vida para ver no que vai dar. Mas sabemos exatamente no vai dar.

Quando alguém se encontra nesse estado, é difícil fazer a mente mandar no corpo. As consequências são conhecidas, as possibilidades estão consideradas, as vantagens, desvantagens, riscos e oportunidades já foram sopesados, mas a balança está alterada e pende mais para o perigo. A gente simplesmente não se importa. E se você não se importa, então qual é o problema de deixar o seu corpo, de sangue fervendo, pegar no volante de vez em quando?

Naquele dia foi assim. E em outros tantos mais. Vamos aos fatos: existem mais de 30 tipos conhecidos de vírus, bactérias e parasitas que são transmitidos majoritariamente por via sexual. Oito deles são pandêmicos, e quatro, dentre estes, são incuráveis. Quais são?

O que existe de comum entre essas infecções? Todas possuem fases assintomáticas. A taxa de detecção dessas doenças aumenta consideravelmente a cada ano, em todas as faixas etárias, raças, preferências sexuais e classes. Bebês nascem com essas doenças por causa da inconsequência de seus pais. O simples ato de transar com alguém, conhecido ou não, já está começando a ficar perigoso.

“Ah, mas é só se prevenir” — Ok, tenha uma boa sorte tentando driblar as oito doenças (não se esqueça das outras 22+, não é só porque é pouco provável que não vai acontecer). Saiba também que nenhum método de prevenção é 100% eficaz e que você pode ser um dos 0,0001% unlucky ones.

Durante quatro anos (desde a minha primeira vez), eu nunca fiz o tal do teste rápido (!!!). Fiz hoje e, por um milagre divino, não deu nada positivo. Ainda terei que repetir o teste depois pra ter certeza.

O que se passava na minha cabeça enquanto eu decidia sair com alguém aleatório para obter um momento de prazer? Sim, isso mesmo. Tudo isso passou pela minha cabeça. Todas as vezes. Desde a primeira vez. E eu fui mesmo assim.

Eu não me expus sozinho aos riscos. Eu expus todos os homens com quem eu tive relações sexuais. Qual é o problema comigo? Vocês vêem a dimensão disso tudo? Não cheguei nem na parte espiritual ainda.

Esta foi a última vez.

Nunca mais.