Jovens palpiteiros

Acho que ascensão do conservadorismo infantil no cenário cultural brasileiro já não deve ser mais surpresa pra ninguém. Enfatizo o infantil aqui, mas esse conceito que eu acabei de tirar da minha cabeça também se aplica a certos adultos. Todos sabem como a coisa funciona: pessoas imaturas dando conselhos sobre maturidade, pessoas sem cultura falando sobre alta cultura — e por aí vai. É o efeito Dunning-Kruger no seu estado mais puro.

Pra quem não se lembra, essa história de crianças conservadoras já começou lá atrás, em 2013, quando uma menina chamada Isabella Trevisani teve os seus 15 minutos de fama ao sair para as ruas e bradar contra “tudo o que estava aí”. Na época, todos os esquerdistas do universo quiseram esfolar a menina viva, e até o Olavo de Carvalho se envolveu na confusão. Ele saiu em defesa da garota, divulgou o seu trabalho e até mesmo ofereceu o COF de graça para ela.

Mas como todo mundo já sabe, é só dar corda para um jovem e logo, logo ele vai se enforcar sozinho nela. Não muito tempo depois, o Olavo precisou passar um pito na pequena gafanhota porque ela já estava se achando demais:

Isabella Trevisani, você entrou no cenário quando toda a atmosfera cultural já estava aberta para idéias que, vinte anos atrás, estavam COMPLETAMENTE BANIDAS. Você não tem idéia do preço que paguei para abrir, praticamente sozinho, esse rombo na carapaça de silêncio que então reinava. Não serre o galho no qual está sentada. Você fala como quem tivesse o monopólio das perseguições sofridas, quando, em comparação comigo, ou, para dar um exemplo nada simpático, com o Julio Severo, você não sofreu absolutamente nada. Seria ótimo se você tivesse consciência das suas limitações e moderasse um pouco a sua linguagem ao falar de pessoas que sabem o que você não sabe. Vou continuar apoiando as suas iniciativas, mas, por favor, não venha com esses ares de quem passa pito num moleque. Isso é ridículo.

Outro jovem que ficou famoso na mesma época foi o Kim Kataguiri, que disse algumas obviedades na internet e imediatamente caiu nas graças do povão. O resultado está aí pra todo mundo ver: olhem agora quem são Isabella Trevisani e Kim Kataguiri.

Agora está acontecendo tudo de novo, só que em larga escala: uma enxurrada de jovens está aproveitando a onda conservadora pra tirar uma lasquinha — pegam conteúdo mastigado e regurgitado do COF e anunciam essas ideias como se fossem deles próprios, muitas vezes sem nem citar a fonte. Eu não quero nem imaginar no que é que essa palhaçada vai dar daqui a uns dez anos.

A lição que tiramos dos exemplos anteriores é clara: o pessoal tem que parar de dar atenção pra jovens. Dar atenção pra jovens é estragar a vida deles e também as nossas.

Jovem tem que assistir anime e os filmes da Disney, lavar louça, aprender a cozinhar com a mãe e arrumar a cama depois de acordar. Jovem tem que participar de acampamento da Renovação Carismática, estrebuchar no chão e acreditar que consegue falar em línguas. Jovem tem que sofrer bullying na escola e na faculdade, passar vergonha em cervejada e mentir pros pais falando que não bebeu. Jovem tem que virar estagiário e trabalhar em condições análogas à escravidão. Tem que aprender violão e tocar Legião Urbana. Tem que aprender piano/teclado e tocar Imagine. Jovem tem que fazer coisa de jovem. Não tem que ser conservador, nem liberal, nem esquerdista e nem direitista.

Fica aí a ideia pros adultos:

Jovem é merda

#Críticas